Assim como o Pocari Sweat tem o seu papel na nossa história, muitos outros objetos e lugares nos fazem lembrar constantemente daqueles dias no Japão, tão importantes dentro daquilo que somos, já que estamos falando das nossas raízes dentro do Karate-Do.
Se eu fosse fazer uma classificação em estações do ano dentro do nossos treinos de Karate-Do daquela época, diria que o verão era Pocari e o inverno era Milk Tea.
Para quem conhece o Japão, sabe do que estou falando. Sim, é literalmente chá com leite, que era vendido igualmente nas maquininhas de refrigerante em versões quente ou gelado. O Japão não é um templo budista ou shintoísta como muitos imaginam que seja, muito menos uma reunião de samurais engravatados. Claro, a cultura tem os seus aspectos tradicionais intáctos, mas como um país moderno e desenvolvido, também absorveu muitas outras coisas vindas do ocidente assim como o Milk Tea.
No frio, sempre tomávamos Milk Tea, saído diretamente da maquinhina situada quase ao lado da plataforma da estação de trem. Estação de Hamakita, onde à esta altura, meu irmão, à pedido do nosso sensei ia ajudar nas aulas do dojo desta cidade.
Os treinos deste dojo aconteciam de segunda e quarta-feira. E justamente nesta época, o Karate-Do começou a se tornar algo muito mais sério e cobrado, onde os nossos treinos "pessoais", fora do Dojo de sagara, agora não se limitavam mais "apenas" aos nossos treinos no parque. Lembrar dessa época chega a me dar aquela saudade que você sente, porque foi uma época de extremo aprendizado, mas não porque foi fácil ou divertido(às vezes era sim). E daí em diante, os dias certamente nunca mais seriam os mesmos trilhando este caminho. Treinar Karate-Do já não era mais algo sério, era algo muito sério.
Mas voltemos ao chá com leite. Aquele chá com leite, quentinho após os treinos de Hamakita, também fazia parte do gosto pelo Karate. Como a bebida era quente, a lata tanbém era mais grossa. Não é como aquela lata de alumínio que você amassa com a mão ou com o pé com facilidade. As latas de chá, café, bebibdas quentes e neste caso o Milk Tea, eram bem sólidas. Um metal duro onde mais uma vez meu irmão via a oportunidade de testar a si mesmo, amassando a lata com um soco(após ingerir o conteúdo é claro). E é engraçado dizer isso, mas enquanto os praticantes normais do Karate socavam Makiwaras e os meninos viam TV nas noites da semana, meu irmão e eu estávamos socando árvores e latas duras de refrigerante. Quem treina Karate-Do, vive Karate-Do e vê Karate-Do em tudo, não existe outra maneira de ser um bom praticante se você não estiver disposto à enxergar a vida desta maneira. Claro, isso não é com a boca que se faz e sim fazendo o Karate acontecer mesmo em situações onde teoricamente não existem Karate. Óbviamente que uma lata de refrigerante nunca vai substituir um Makiwara, mas se você por além do makiwara fazer alguma coisa que te aproxime, que te faça criar uma conexão com a sua técnica, por que não fazer?
Certa vez, conversando com uma pessoa mais velha ela me disse:
"Não adianta ninguém lhe dizer que o prato requintado na sua frente é delicioso, se você não provar, analisar, saborear e aí sim gostar, nada faz sentido. Se não fizer isso por si, nunca vai saber qual é a verdade, o gosto da verdade."
Hoje faz um pequeno frio em São Paulo comparado ao frio Japonês, adivinha o que eu vou beber? Vou treinar.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
O sabor dos ideais
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Pocari Sweat
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quinta-feira, 26 de maio de 2011
It's all about Kokoro
A língua japonesa, se não for a única, é uma das poucas que tem duas palavras distintas para definir o que generealizamos como coração. Uma delas, a palavra Kokoro (心), se refere ao lado emocional e espiritual deste coração.
A volta para casa, a ida para o Dojo ou o caminho a pé rumo aos treinos físicos no parque. Talvez, estes tenham sido os momentos em que eu mais pude aprender sobre o significado e a importância da palavra "Kokoro" dentro do Karate-Do.
Às vezes eram momentos de silêncio e tensão com uma atmosfera densa e pesada, por outras vezes era tydo descontraído e cheio de conversas que pouco tinham ligação com o Karate, mas sempre, em todas as situações de forma indireta ou direta o Karate-Do esteve presente(afinal, sempre era a ida ou a volta de algum lugar que envolvia a palavra treino).
Voltando do parque Shie Gurando, meu irmão mostra suas mãos, bem machucadas após os socos dados nas árvores do parque ao final do treino. As minhas mãos na maioria das vezes ficavam bem menos machucadas que as dele. Enquanto caminhávamos voltando para casa, numa conversa descontraída comparávamos as nossas mãos e meu irmão se orgulhava das suas, visivelmente orgulhoso por sempre fazer o seu melhor. Ali, me ensinava que a intensidade tinha de ser sempre constante e que se era difícil para mim, era para ele também. Vou aprendendo então, a importância de sempre ter as minhas verdades em jogo.
Socar árvores ou o que quer fosse, não era sobre um calejamento externo. Era sobre se questionar constantemente. Quem você é e quem você quer ser, onde mora sua força ou fraqueza de espírito. Mais tarde, entende-se que qualquer treino que seja, só é treino mesmo, se serve para esse constante questionamento. Tomamos um isotônico (Pocari Sweat, muito popular no Japão) de maquininha e vez ou outra recebo um elogio, uma palavra de reconhecimento pelas minhas mãos, por ter ido mais longe do que o treino passado. Eu sorria e com muito orgulho, limpava o sangue da minha mão.
Dentro do trem, indo para o Dojo. Eu já sabia que teria algum obstáculo, pois meu irmão nunca me deixou treinar na zona de conforto, sempre era incômodo, seja pelo fato de ter que enfrentá-lo na hora extra de treino ou por conta de algum garoto do dojo com quem eu tinha certeza que meu irmão me faria lutar. Como eu nunca foi o melhor, sempre tinha alguém maior, mais forte ou melhor em algum quesito para tornar minhas noites mais "agradáveis". Então dentro do trem, eu sempre vivia o meu conflito particular, esperando pelo que viria algumas horas depois.
Voltando para casa, na estação de trem. Depois de matar ou morrer. Quando tinha sucesso, estava sorridente contando detalhes para o meu irmão de como eu tinha conseguido me impor diante dos garotos melhores do que eu. Quando não tinha sucesso, estava ali, calado e cabisbaixo, geralmente nervoso, engolindo o choro entre soluços contidos, pensando no que havia feito de errado. O silêncio neste caso, ensina muito mais do que palavras e meu irmão, sabia disso. Por mais bravo e descontente que ele também estivesse, geralmente ficava calado e também emburrado, porque certamente para ele também não era nada bom saber que eu tinha falhado.
O Caminho, tem os seus caminhos. Dojo, significa literalmente, "o lugar do caminho". Onde você coloca em prática o Karate-Do. Mas as máquinas de refrigerante, o parque, as estações de trem, os trens, me ensinaram que o verdadeiro dojo se chama Kokoro. Porque é ali, que tudo nasce, vive, cresce, evolui e se torna muito maior do que tudo através do tempo, do suor, da dor ou até mesmo do sangue.
Não é sobre seiken, maegeri, kata, kumite ou kihon. Somos o que somos aqui nestas linhas escritas, só porque:
It's all about Kokoro.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Ser o Caminho

quinta-feira, 19 de maio de 2011
A arena de inverno
Está frio, saio correndo de manhã, antes do trânsito ficar caótico na cidade. As mãos estão geladas, ao final da corrida, a pele do rosto arde ressecada pelo vento gelado e literalmente sai fumaça(vapor) do meu corpo. Ah, como eu gosto dessa sensação.
Caminhando de volta para casa, fumaçando e ofegante passo pelas pessoas que me olham de forma meio estranha, com certo ar de espanto. Eu ignoro os olhares e mergulho na razão de estar ali, sozinho, voltando para casa exausto entre aqueles olhares curiosos:
"O vento quase não sopra no inverno daquele lugar. A iluminação do campo era suficiente para fazer daquele treino "O" evento do dia. Naquele dia, não tinha treino de Karate no Dojo e o meu irmão trabalhava no período diurno, sendo assim, essa hora vaga do dia era o nosso espaço para "fazer acontecer".
Treinávamos ali. Corríamos ou melhor, meu irmão corria e eu sofria. Quantas vezes acabei sendo um atraso para o treinamento do meu irmão, hoje em dia eu sorrio de canto de boca quando lembro dessas cenas. A "dor no baço" era terrível e sempre vinha seguida da "dor no ombro". Tinha vontade de parar, de andar, mas sempre meu irmão reduzia a marcha e ao meu lado corria e dizia "só mais uma volta, só mais um pouco". Aos trancos e solavancos, sempre dava para terminar o treino.
Após a corrida, vinham os Kihons, os Katas, a movimentação de Shiai Kumite e por último, as flexões de mãos fechadas em cima das pedras e os socos nas árvores que cercavam o campo.
As flexões deixavam sempre a pele afundada, com a marca das pedras nos dedos. Quem tinha mais marcas prfundas era o vencedor moral daquele exercício, assim como quem arrancasse mais "casca" das árvores com socos era o vencedor da segunda etapa."
Caminhando de volta para casa, voltando do treino. Exatamente onde eu deveria estar. No frio, com a pele ressecada e ardendo. Ali, não é só sobre ganhar, perder, ser melhor técnicamente ou fisicamente.
Físico você lapida, técnica você aprende, você ensina. Mas um ideal, você assume.
Treinar Karate-Do, é correr, é lutar e acima tudo, é conflitar suas verdades de ontem com as de hoje dizendo para si mesmo, quem você quer ser amanhã.
Voltando da corrida abrindo o portão de casa, eu sempre tenho as minhas respostas.



