segunda-feira, 18 de julho de 2011
Um Universo comum a todos
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Uma infância sem desculpas
Por mais que a região de Shizuoka não fosse a mais fria de todas no Japão, no inverno fazia um frio que não se comparava de forma nenhuma com o inverno brasileiro. No Japão, desde cedo as crianças aprendem sobre deveres, obrigações, responsabilidades e independência. Ninguém vai à escola de ônibus, de carona com o pai ou a mãe, todos íamos à pé.
No calor ou no frio, os meninos vestiam shorts e as meninas saias, ninguém usava calças à não ser que estivesse doente o suficiente para isso. "A saúde está nas pernas" diziam para mim no começo quando eu não entendia aquilo tudo.
No almoço, quando nós mesmos servíamos a nossa comida na sala de aula que se transformava num refeitório, ninguém podia deixar sobrar comida no prato. Você é responsável pelo que come, pelo que os olhos comem. Se colocou, se pediu para colocar na badeja, tem que comer tudo. Certa vez, logo nos meus primeiros dias de aula, eu fiz o que os brasileiros fazem por sua "educação", deixei comida no prato e a hora do almoço se prolongou, porque tive que comer tudo sob o olhar de todos que já tinham acabao de comer.
Mas num país que viveu na fome, na dor, na tristeza das consequências de uma guerra, quem são os brasileiros para julgar tal cultura? Viver, crescer e aprender com o Japão nada mais é do que aprender à viver sem desculpas. Porque justificativas e desculpas são realmente para quando você precisa delas.
Fora da escola, eu tinha exatamente as mesmas lições dentro do Karate-Do. Era puxado e meu irmão sempre cobrava uma responsabilidade extra pelo fato de ser o seu irmão mais novo. Teve dias em que eu quis faltar, porque estava cansado(o meu irmão nem estava), porque tinha coisas para fazer(todos nem tinham), porque queria me divertir(os outros nem queriam), porque queria estar com meus amigos(niguém queria), porque tive medo(ninguém nunca teve) ou simplesmente porque estava com preguiça(ninguém sente preguiça).
A verdade é que todos sentem e todos sem excessão se encontram sob as mesmas condições, dar-se o direito de não fazer algo com uma desculpa dessas citadas acima é simplesmente dentro do Budo uma amostra de falta de humildade, já que se todos se encontram sob efeito das mesmas coisas, por que só você teria direito de usá-las à seu favor?
Então, eu vivi a minha infância e os primeiros anos do meu Karate-Do aprendendo sobre desculpas. Aprendendo que todo mundo tem desculpa para tudo, mas que não era isso que interessava no final das contas porque as desculpas só fazem pessoas genéricas. E o verdadeiro Karate-Do(como todos gostam de citar e poucos gostam de praticar) se trata de fazer a diferença.
Com o passar do tempo, o óbvio de tudo é ser difícil, esperar que seja difícil e o fácil é só uma agravável surpresa passageira que você aproveita, vive, mas não se dá o direito de acostumar. Ao encarar as coisas dessa forma, creio que é possível viver uma vida sem falsas desculpas.
Claramente, existe o bom senso. Todos somos de carne e osso, o Hanshi Konomoto, o Sensei Nagatani, o meu irmão Akira, todos eles tinham sangue correndo pelas suas veias, mas até podermos admirar esse sangue e sangrarmos da mesma forma, primeiro, antes de tudo é necessário aprender sobre a vida sem desculpas.
E um dia, olhando para as próprias justificativas que por opção foram deixadas para trás através do silêncio, há de se descobrir o significado do "Bom" senso.
segunda-feira, 11 de julho de 2011
O ano de 1993

Em um ano onde pude participar de um mundial pela primeira vez, com certeza, é um ano para ficar na memória.
Voltar também ao Campeonato Estadual de Shizuoka e tentar novamente a superação, a busca pelo melhoramento, a sensação era muito boa estar ali de novo.
Quando se resolve trilhar o caminho do Budo, é necessário um comprometimento muito grande, pois a vida nos ensina que quanto maior forem as suas aspirações, maiores serão os testes a passar. Em 1993 eu trilhava o caminho do Budo, ainda era "apenas" Shodan e tinha total consciência de que tinha muito ainda a aprender, pois queria um dia ser Campeão, dentro das competições, mas acima de tudo, meu grande ídolo sempre fora o meu Mestre, Konomoto Takashi. Treinar duro, aprender, entender e por em prática o conhecimento, pois nas palavras do meu Mestre, só assim o conhecimento poderá um dia se transformar em Sabedoria. E era isso que eu buscava, um dia queria ter aquela sabedoria, ter aquela vivência, um dia sonhava em ser um Mestre. Sabia também da minha responsabilidade, afinal, além dos alunos mais novos do Dojo, havia também o meu irmão caçula, que me acompanhava em tudo que fazia e tinha que mostrar a ele, que o Budo tinha que ser comprovado na prática. Sei que em muitas vezes ele talvez não entendia o por que dos sacrifícios, o por que da rigidez, mas eu via nele uma grande força interna, então aquilo tinha que ser lapidado.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Próxima rodada
Entre tantas experiências vividas com o Karate no Japão, constantemente na minha lembrança momentos parecidos, onde fizemos exatamente a mesma coisa, só que em ocasiões diferentes. Todos os momentos relacionados às competições estão presentes nessa sessão de "repetições".
Em todos os campeonatos que disputei, lembro-me de sempre ter o meu irmão ao meu lado. Fosse naquele momento que antecede a luta de shiai kumite, ouvindo suas instruções ou como ali, sentado, olhando os outros garotos e seus katas, esperando pela minha vez.
Atentamente meu irmão observava cada execução de kata e marcava num papel a nota dos melhores, já que em categorias infantis no Japão(e nesse caso o mundial) raramente tinha um número menor do que cem participantes, sendo assim, anotar as notas era quase uma obrigação para que pudéssemos saber no decorrer da competição se eu estava "dentro" ou não da próxima rodada.
Enquanto meu irmão se ocupava com esta função, eu observava atentamente, primeiro para saber o que eu estava enfrentando, segundo, por curiosidade, ainda com aquela dúvida e querendo saber se mesmo vindos de outros cantos do mundo, eles, os estrangeiros faziam a mesmas coisas que eu. Para a minha ingênua surpresa sim, eles faziam as mesmas coisas que eu(é claro que uns melhores que os outros, mas faziam).
Porém, o que mais me chamava a atenção eram as diferenças étnicas. Por mais que se diga que o Brasil é um país onde há de tudo, até então, a minha única experiência com povos de outros países, era o fato de estar morando no Japão. Era curioso ver meninos da Índia por exemplo.
No final das contas, passados os cem garotos e seus Katas. Eu não consegui figurar entre os oito que passavam para a próxima fase. Eu mal sabia da grandeza do karate dentro do Japão, mas agora sabia que a o mundo do Karate era muito grande. Assim como nos dias em que colocava a minha cabeça no travesseiro crente que o dia de amanhã me traria novas descobertas e aventuras, creio que de alguma forma, apenas em sentimento, sem palavras para descrever, eu sabia que muita coisa me esperava nesse mundo tão grande do Karate-Do.
O mundo é muito grande. E ainda me pergunto, o que tem para amanhã?
segunda-feira, 4 de julho de 2011
1993 - Mundial Goju-kai em Tokyo II

Ver o Horácio, tão garoto e já participando de um mundial, me enchia de orgulho. Após sua execução do kata Gekisai Dai Ichi, fiquei anotando as notas dos outros competidores, e para uma primeira participação, estava ótimo.



