segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O hoje e o amanhã

No ano de 1995 meu pai com saudades de nossa terra Natal, resolve voltar ao Brasil. Volta primeiro sozinho para poder reformar nossa antiga casa, minha mãe, o Horácio, a Simone e a Melissa ficam até que a reforma esteja concluída e eles possam voltar.

Novamente estamos prestes a nos separar e isto confesso não é o melhor dos sentimentos. A sensação de que estarei novamente longe das pessoas que amo me faz refletir até onde e o que realmente tem valor nesta vida.

Nossos treinamentos continuavam intensos e nossa rotina também. Treinávamos no Honbu Dojo de Shizuoka com o Sensei Nagatani e com o Hanshi Konomoto aos sábados, durante a semana eu ministrava aulas alternadamente nos Dojos de Hamamatsu e Hamakita e aos domingos de manhã ajudava o Sensei Takeda no Dojo de Kita Terajima que ficava dentro de um shopping na cidade de Hamamatsu.

Nossa família iria se separar novamente, então era preciso aproveitar todo o tempo possível para ficarmos juntos. No caso do meu brother Horácio, significava treinarmos mais ainda. Além dos treinos "normais", pedia o Dojo de Hamakita emprestado ao Sensei para fazermos estes treinos extras. Treinávamos nós dois e às vezes convidava alguns amigos e também outros Senseis de outros estilos. Sentia que iríamos ficar por um tempo longe e estas horas de treino junto com o Horácio eram para mim de muita importância. Passamos então, ainda mais tempo juntos e pudemos compartilhar não apenas conceitos técnicos, mas também pensamentos, ideais e claro, amor de família.

Sempre procurei ver o lado bom das coisas, ser sempre uma pessoa positiva e tentava ver que todo sacrifício tem sua finalidade e propósito.

Não iria me preocupar com o futuro agora, queria apenas treinar e treinar com meu brother......



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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Shoshin

Aquele ano foi bastante intenso. Além da faixa preta, vieram muitos outros desafios, campeonatos e situações sempre novas. Muitas vezes as pessoas confudem as coisas. Usar a experiência a seu favor, não quer dizer viver momentos já vividos e tirar tudo de letra, na verdade quer dizer apenas usar o conhecimento sobre tudo que foi vivido até então, para encarar novas situações.

Nada é igual pelo caminho. Se é, certamente é porque você está fazendo da forma errada. Quem busca a verdade nunca vê as mesmas coisas, nem nos mesmos lugares.

Quando se é iniciante, existe uma falsa esperança para o futuro, onde se imagina uma facilidade. Quando eu for faixa preta, será mais fácil de fazer tal coisa. Errado. Uma vez que você anda, você muda, tudo muda com você. E essa talvez seja a grande maravilha da cosia, pois treinando duro, esta condição sempre irá existir, mantendo quem pratica sempre num estado eterno de busca pela melhora, com os pés sempre dentro da humildade, sinceridade, aquilo que creio que podemos chamar de "Shoshin". O bom e velho espírito de aprendiz.

Não são títulos, graduações, faixas ou kimonos bonitos que fazem o Karate-Do de cada um ser o que é. É o ser e não o ter.

Recentemente no último campeonato que competi, uma criança me perguntou quantas medalhas eu tinha e eu não soube responder. Elas estão guardadas numa gaveta da minha casa. Talvez se ele tivesse me perguntado sobre alguma história, de alguma dessas medalhas ganhas eu saberia responder de prontidão.

Mais do que qualquer coisa que eu possa ganhar de material, eu sempre fui muito mais ligado ao que se conta sobre estas conquistas. Talvez tenha aprendido isso com os senseis lá no Japão ou melhor, aprendi isso com eles lá. Na humildade de ser e não demonstrar, na sinceridade de ser sempre o símbolo de uma busca de quem serve a um propósito muito maior.


Shoshin, no final daquele ano de 1995, era o que eu teria que encontrar pela frente.

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Uma Faixa, um Ideal

Me lembro de quando estava mais ou menos seis meses treinando no Honbu Dojo da Shizuoka Goju-kan, um dos pais dos alunos que treinavam lá me perguntou: - "Você sabe com quem está treinando?" e eu meio sem entender a pergunta respondi: - "Sim, com o Konomoto Sensei....." e ele rindo disse: - "Não, não, queria saber se você sabe quem é o Konomoto Sensei. Konomoto Sensei é um dos Senseis mais graduados de todo o Japão, ele é 9 Dan do estilo Goju-ryu, ele tem o título de Hanshi e possui a faixa vermelha de um lado e preta do outro." - Este comentário despertou ao mesmo tempo um ar de espanto, admiração e curiosidade.

Uma faixa dessas gera uma admiração por si só. Basta olhá-la. Mas o que mais me causou admiração, foi o fato de eu nunca ter visto Konomoto Sensei usando-a. Nos quase sete anos em que passei treinando neste Dojo, em apenas duas oportunidades vi esta faixa e nas duas ocasiões foi porque pedi ao Sensei para que eu tirasse uma foto. Gentilmente ele foi até o armário do Dojo e de dentro da gaveta retirou a faixa e a colocou para tirar a foto e novamente voltou a guardá-la. Deste episódio posso dizer que fiquei ainda mais admirado com o meu Sensei e também pelo fato de se comprovar na prática o que de fato é desapego do ego e do bem material, externo.

Deste dia em diante minha admiração só aumentou, mas também fiz disso um ideal. Um dia, com muito esforço e dedicação, gostaria de chegar a um nível como o do meu Sensei. A ter toda a sabedoria, humildade, simplicidade e este desapego. Poder ter a capacidade de portar uma faixa como aquela, mas também ter o conhecimento e a sabedoria para saber se desapegar de tudo que é material.

Treinar e muito, este é o segredo......


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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Hora de recomeçar

Em algum momento do caminho há de se enfrentar a tempestade. Acredito que na verdade o trajeto todo é exatamente sobre os dias de sol que aproveitamos em paz, tratando de cultivar, viver e memorizar a sensação existente ali. Certamente essas lembranças serão úteis.

Parece uma equação até óbvia, mas o óbvio muitas vezes só é para a cabeça, porque na realidade vivida mesmo é mais complicado que isso.
Onde você está agora, só interessa, faz sentido se quem você é agora neste lugar, possuir conexões diretas com passado e futuro.

Para cada dia vivido em meio ao suor, existe uma ponte que liga, presente, passado e futuro. As alegrias e tristezas não serão as primeiras, nem últimas, uma vez que seus pés já estiverem em algum lugar desta estrada.

Nada nesse sentido é melhor ou pior, assim como nada será perdido ou desperdiçado. Há o que há e esta exatamente onde deveria estar. Esta é a certeza que movimenta a estrada.

E como sempre, hoje, ontem e amanhã, é hora de recomeçar.

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Humildade, Sabedoria do Mestre Konomoto

Uma das coisas que mais impressionava no período em que estive no Japão era a humildade que se tinha de um modo geral, não apenas no fato de praticarmos uma arte marcial, mas na forma de pensamento do próprio povo. A pessoa que detinha o conhecimento, procurava não demonstrar, não fazia questão de que todos soubessem de tal conhecimento. Por outro lado, aquele que estava ali para aprender, tinha total consciência de que estava ali por não ter tal conhecimento. Deste tipo de atitude pode-se notar que a humildade encontra-se dos dois lados da história. Tal fato eu também notava em nosso Dojo. Tanto o nosso Mestre (Konomoto Takashi que é Hanshi 9 dan) quanto Shihan-Dai do Dojo (Nagatani Sensei que é 5 dan) tinham uma postura idêntica. Nenhum dos dois fazia a mínima questão de demonstrar ou mostrar suas graduações ou qualquer outro tipo de diferenciação. Suas faixas pretas eram velhas (antigas, desbotadas e gastas) e olhando-as era impossível de dizer ao certo suas graduações. Tão pouco se intitulavam como sendo qualquer coisa.
Eles ensinavam e a prova de que eles detinham o conhecimento era simplesmente porque eles "faziam" o que se propunham na prática. Os alunos com isso, demonstravam a humildade, prestando o máximo de atenção, sabendo que tudo que era ensinado ali, era de suma importância.
Aprendemos que não é elegante falarmos de nós mesmos atribuindo méritos, que não nos chamamos de Senseis e que sempre é possível progredir e aprender mais.
A maior herança que vejo que podemos deixar com o que aprendemos lá no Honbu Dojo em Shizuoka, talvez não sejam os títulos conquistados, as medalhas e troféus. Tão pouco sejam as graduações ou nomeações. Acredito que a nossa maior herança pode ser no dia em que retornarmos lá no Honbu e diante do Sensei Konomoto e Sensei Nagatani, eles nos olharem e dizerem: "Vocês continuam os mesmos, diferentes, mas iguais....."

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