
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Treinar e aprimorar

quarta-feira, 11 de maio de 2011
Meu irmão
Suado eram os treinos. Mas mais ainda eram os "extras" que vinham após os treinos do dojo. Após o horário convencional das aulas de Karate, meu irmão sempre me pegava para treinar, eu, ele e um relógio que andava lentamente quando dava-se início à essas horas extras.No começo, eram apenas treinos visando o meu aprendizado. Mas com o tempo, comigo ganhando tempo de treino e experiência, o aprendizado entrava cada vez mais em uma etapa onde aprender era um significado mais moral do que prático, porque na prática, eram horas extras que visavam só uma uma coisa, a melhora. Na prática nessas situações, você só vai saber o que aprendeu de verdade tempos depois com aquele trecho já percorrido.
Se no horário de aula, os sons daquele mundo ecoavam, ali no "mano à mano" com o meu irmão eu tinha a sensação de que o silêncio combinando com o som dos golpes, dos Kiais, do Karate-gi de lona estalando, mentalmente me engoliam como um cordeiro. A presença de treino no "mano à mano" era muito diferente e o meu mundo nesse caso sempre se tornava um terreno tenebroso para mim, como se fosse mais o meu mundo e sim o do meu irmão.
A minha "moleza" acabou exatamente quando eu saí da faixa branca. Dali em diante tudo, exatamente tudo até hoje, foi feito com estas horas extras que amigavelmente chamo de bônus game.
Algumas vezes eram repetições de movimentos de Kata infinitas vezes, outras eram direcionadas para as falhas no Shiai Kumite(luta) e em algumas ocasiões era um um "leve" alongamento.
A cobrança crescia à cada dia e nem sempre eu aceitei isso numa boa, tranquilo. Principalmente porque os Saito são cabeças duras por natureza. Era penoso encarar meu irmão com seus vinte e poucos anos enquanto meus amigos de escola estavam em casa assistindo Dragon Ball Z na TV.
Por que eu tinha de ser bom naquilo? Eu nunca ouvi uma palavra se quer sobre isso naquela época. Nunca perguntei, da mesma forma que nunca fui cobrado verbalmente por tal coisa. A palavra vinda de cima para baixo era sempre a mesma: Faça.
Dentro desta arte marcial, as palavras estão sempre em segundo plano.
Muitas pessoas mundo afora se apegam ao sacrficio de forma errada, tornando a dificuldade e o esforço, apenas em palavras soltas sem sentido, apenas para se gabar de algo ou se desculpar por eventual fracasso premeditado.
Nenhum sacrifício do mundo vale um centavo se quer, se falar está antes do fazer. Nenhuma palavra substiturá o trabalho árduo, correto. Eu disse nenhuma. Dentro de uma arte marcial onde o intuíto é criar guerreiros, sacrifício só significa mais glória na vitória e desde que isso sirva só para você mesmo como prova de que você é capaz. Nenhum guerreiro quer pena, nenhum guerreiro faz as coisas premeditando à pena dos outros em relação à ele mesmo. De onde vim, não era sobre matar leões todos os dias e sim aprender como me tornar um deles.
Então, por que eu tinha que treinar tanto, horas à mais que os outros meninos da minha idade? Eu nunca ouvi da boca do meu irmão, mas não era preciso. Eu tinha quer ser melhor para ser o melhor. Para meu irmão apontar o dedo com orgulho e dizer: Aquele, é meu irmão.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Quando competir é mais que vencer
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
O importante é competir - parte II -
Vários meninos da minha idade sentados em volta de um Koto demarcado por fitas no chão. A categoria, só de meninos faixas brancas tinha por volta de vinte e cinco "moleques". Todos ali, uns mais outros menos, mas todos sem excessão estávamos ansiosos com a primeira apresentação à ser realizada em uma competição.
Ali, naquele momento começava oficialmente a minha jornada pelas competições de Karate. Enquanto estava sentado ali, observando os outros garotos se apresentando e aguardando a minha vez, na minha cabeça eu repassava o que tinha de ser feito.
Ver os garotos que se apresentavam antes me ajudava também neste processo, já que a entrada, os "protocolos" padrões eram universais e olhar os que faziam antes da minha vez, me ajudava de forma direta na minha tarefa mental.
O Protocolo consistia basicamente em: Cumprimentar antes de entrar no Koto(na linha de entrada da área de competição), puxar ambos os braços com os punhos cerrados na alturado Hikite(altura da puxada de mão padrão do golpe de Karate, na parte lateral superior da costela), dar uma corridinha até a linha que demarcava onde o atleta tinha de se posicionar para a execução do Kata, cumprimentar novamente e ali, levantar o braço direito em riste anunciando o nome do Kata de forma clara e firme.
No Japão, as crianças utilizavam este padrão de entrada.
Enquanto eu esperava e relembrava os movimentos do Kata, meu irmão estava ali, o mais próximo possível. Observando tudo atentamente. De alguma forma me transimitindo confiança, segurança e apoio. Coisa que até hoje tenho muito orgulho em dizer que ele faz, mesmo após tantos anos. Em seu último campeonato competindo Kata, nos enfrentamos e eu pude vencer este sujeito(isso já é outra história e das boas), que ali, há quase vinte anos atrás e por todos este anos esteve sempre do meu lado. Independentemente da situação, da minha condição, sendo em dias de favoritismo ou em dias de pura descrença por parte dos outros. Se existe uma pessoa que eu posso dizer que sempre acreditou no meu melhor, essa pessoa é aquele cara que ali estava desde o começo, acreditando que eu sempre podia vencer.
Taikyoku Jodan! Anunciva então a versão mirim daquela época. Dezenove movimentos mais tarde, eu estava feliz por ter feito parte daquilo. Da competição em si? Sim, de certa forma. Mas por ser o melhor que eu podia. Dentro do que me cabia, sem modéstia eu posso dizer que foi perfeito. Porém é claro que em campeonato, o seu perfeito compete com o perfeito de outros.
Essa não é uma história de meninos prodígios que ganharam o mundo logo na primeira vez. É a história de dois irmãos que continuam sonhando como naquele dia. Fazer o melhor. O importante ali era competir de fato por conta da primeira experiência. Porém dali em diante, competir era vencer sempre. Os adversários nem sempre, mas a versão anterior de quem você foi no dia de ontem. Você é a competição.
Não fui campeão no meu primeiro campeonato. Mas tinha um sorriso que ia de orelha à orelha. Na verdade, dois sorrisos, um meu, outro do meu irmão orgulhoso.
Se você me perguntasse ali, para onde eu estava indo, certamente eu não saberia responder. Agora eu respondo e entendam, aqueles que falam a mesma língua que nós. Naquele dia, eu, estava indo para casa.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Shizuoka Ken Goju-kai Taikai
O meu primeiro campeonato no Japão foi em 1991, campeonato da Província de Shizuoka e além do eventual nervosismo, ainda tinha o fator de ser o único brasileiro.
Agora passado um ano, já havia participado do Nacional em Tokyo, já era Shodan e já estava até ajudando os mais novos do Dojo. O pensamento não era mais tanto em mim mesmo, e isso também me ajudava a enfrentar melhor o habitual nervosismo de campeonato. O campeoanto acontecia todos os anos no Ginásio P & G da cidade de Sagara e apesar de não ser seletivo para o campeoanto nacional da Goju-kai, todos os Dojos da Província participavam. As categorias adulto masculino e feminino eram praticamente os mesmos competidores todos os anos, geralmente Senseis e Senpais de seus Dojos. As categorias que realmente eram cheias eram as das crianças, no caso a categoria do Horácio. Primeiro campeonato dele, o início de uma trajetória de vitórias.
Apesar de no Dojo o treinamento ser tradicional e a ênfase na competição em si não ser prioridade, nos nossos treinos diários a competição servia como um estímulo a mais. Vencer, na família Saito sempre foi obrigação, cobrança feita pelo meu pai em tudo que eu fazia e claro, a cobrança agora eu repassava para o Horácio. Muitos acreditam que esta cobrança feita a uma criança pode ser prejudicial, mas eu vejo que toda cobrança feita pelo meu pai só me trouxe benefícios. E, claro, não era cobrado o fato de "ganhar" e sim o de "vencer", que são conceitos bem diferentes. Vencer a si mesmo, vencer suas fraquezas, assumir a responsabilidade pela derrota e buscar corrigi-las ao invés de culpar outros fatores ou pessoas.
"Vencer" agora estava nas mãos do Horácio, vencer seus medos, o nervosismo, a ansiedade, vencer o inimigo imaginável que assombra a todos, nós mesmos.
No campeonato, ele era não apenas um aluno, agora ele tinha a responsabilidade, ele era um Saito, e ele sabia disso.....
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