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Ao final de cada dia, deitava minha cabeça naquele travesseiro japonês, pensava um pouco no dia que tinha se passado e dormia sempre sem pensar no dia de amanhã. O dia seguinte era sempre uma consequência daquela vida que mais parecia uma aventura ainda cheia de descobertas, mesmo comigo já adaptado ao "cenário" japonês. O sentimento era de que sempre existia um mundo inteiro à ser descoberto, à ser revelado, na escola eram as novas atividades, as matérias que eu nunca teria a chance de estudar no Brasil, nas horas vagas meus amigos me mostravam cada vez mais "os clássicos da infância japonesa" que iam desde as pequenas lojas de doces do bairro(onde por cinco yens, algo como cinco centavos), se comprava um chocolate que era incrivelmente bom! Além de saboroso, era bom também para o bolso dos estudantes que viviam de suas mesadas.
Apesar do treino pesado, cada vez mais duro e intenso, o Karate sempre acabava sendo a grande descoberta que finalizava o meu dia. Todos os dias era algo diferente, às vezes tinha medo, às vezes tinha preguiça, por outras ia sorrindo e me divertindo com o meu irmão. Alguns dias voltei chorando, bravo ou decepcionado por não ter feito um treino melhor. Outras vezes, jogávamos Street Fighter no Boliche ao lado da estação em Hamamatsu, de onde chamávamos e esperávamos o Taxi chegar para nos levar para casa.
Em todas essas ocasiões, de diferentes situações, sentimentos e acontecimentos, existia lá no fundo uma coisa que era sempre igual, o gosto por aquilo tudo. Se chorava, se doia, se levava uma bronca, sabia que quando voltasse para casa e colocasse a cabeça naquele travesseiro, o dia seguinte teria a oportunidade de tentar tudo de novo e exatamante por isso não pensava no amanhã. Quando você sabe, não pensa, não questiona, porque sabe, simplismente sabe. Fazer o que não deu certo funcionar e viver todas as coisas que deram certo novamente. Era exatamente isso que acontecia.
Já faz um tempo que tudo isso aconteceu e perdi a conta de quantas noites se passaram colocando a cabeça no travesseiro querendo apenas que o tempo adormecendo passasse logo, para fazer tudo novamente. Quantos "amanhãs" eu vivi dessa mesma forma.
Ando de metrô e lembro desses dias. Jogo uma versão mais nova de Street Fighter num aparelho portátil, esperando o ônibus na estação. Caminho um trecho à pé voltando para casa pensando em como nada mudou. A verdade é que não há de mudar nunca, pois a nossa essência apenas se adapta às circunstâncias da vida e do tempo. Ao final de cada dia, coloco a cabeça no travesseiro. Amanhã? Sei que será melhor, eu apenas sei. Nós somos os mesmos.
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Treino aqui, treino lá, treino no dojo, treino no campo e assim, cada vez mais o passar do tempo se tornava intensamente Karate-Do. Já acostumado ao ritmo de vida de uma criança japonesa, onde as atividades escolares ocupam quase o dia inteiro, entre a escola e o Karate, cabia ainda perfeitamente as horas que eu passava com os meus amigos jogando video game, baseball no parque ou zanzando pelo bairro visitando grandes livrarias e comendo guloseimas nas lojas de conveniência.
Aos poucos eu deixava de ser o garoto que saiu do Brasil e me tornava o garoto brasileiro que vive perfeitamente no Japão.
Hoje como adulto às vezes me pergunto como era possível fazer tanta coisa! Desde que comecei os meus estudos no Japão na quarta série, as aulas da escola sempre iam até por volta das quatro horas da tarde. E como toda boa e velha vida escolar, além das aulas tinha também a lição de casa. Então o meu questinamento atual se justifica e eu tenho quase certeza de que lá naqueles dias, o tempo passava mais devagar.
Nesta rotina entre Karate, escola e amigos, existia o tempo que passava em casa com o meu irmão. E assim como eu deixava de ser o menino que saiu do Brasil, meus heróis, ídolos e referências também sofriam uma certa mutação.
Apesar de continuarmos com o nosso velho hábito de assistir filmes de luta, o espaço que tinhamos para ver alguma coisa na TV agora era dividido entre estes filmes e os vídeos de campeonatos de Karate.
Alguns vídeos eram VHSs comprados e outros eram de campeonatos que meu irmão gravava da TV.
Lembro de ter passado bastante tempo dessa parte da história assistindo aos Campeonatos Japoneses da JKF.
Vendo aqueles vídeos e ouvindo histórias que o meu irmão contava, os meus ídolos começavam à tomar uma forma mais real e os filmes de luta do Jean Claude Van Damme começavam à ficar em segundo plano, porque dali em diante não se tratava mais dos ídolos que eu gostava de ver, mas sim dos ídolos que um dia eu queria ser.
O Kizami Gyaku do Shimizu, os Urakens do Uchida (do Shimizu também), o capacete verde do Hayashi, os Ushiro-Mawashis do Enokido, os Deais do Shiina, a rivalidade entre uns e outros, tudo isso só me fazia querer ser como eles um dia. Os treinos se tornavam cada vez mais firmes, a cobrança também aumentava e incansavelmente meu irmão e eu víamos as técnicas em slow-motion no VHS, voltando a cena várias vezes para vermos melhor os detalhes( quem é da geração VHS sabe que não era legal ficar fazendo esse vai e vem), para tentarmos aquelas técnicas no treino seguinte.
Então, assim foram ficando para trás os heróis de barro, que derretiam e não me serviam de nada. Dando lugar à heróis verdadeiros que me faziam querer chegar num lugar mais alto, num patamar diferente. E o mais importante de tudo, o ídolo que eu sempre tinha ao meu lado que no dia seguinte, estava me cobrando mais velocidade nas entradas de Kizami Gyaku. Os ídolos são necessários, mas aqueles de carne, osso e sangue. Os heróis do meu mundo, aquele era de fato o meu novo mundo.
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