segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ser o Caminho


Muitas vezes, as pessoas olham um determinado "Campeão" ou´"Ídolo" e imaginam que aquele instante é único e que para se chegar até alí, o caminho foi feito apenas de vitórias e conquistas. O caminho daqueles que chegam é sempre constituido de derrotas e frustrações. A diferença no caso é que a grande maioria desiste dos seus objetivos quando lhe é conveniente, e a justificativa sempre será convincente, enquanto que para outros, tudo será sempre usado como combustível para se alcançar o objetivo, sendo este fator bom ou ruim, nunca dando abertura para a única coisa que pode te tirar do caminho, a desistência.
Lembro-me que em todos os anos em que vivi no Japão, contabilizei muito mais derrotas do que vitórias. Isto não significa que encarava as coisas como um fracasso, muito pelo contrário, visualizava tudo como uma forma de aprender com os erros, corrigí-los e fortalecer a vontade de vencer.
Lembro-me que em 1992 no Campeonato Estadual de Shizuoka, em minha luta (que no Japão não tem divisão de peso) que fiz com um americano chamado MacDonald, no momento em que apliquei um giyaku-zuki, ele aplicou um ura-mawashi-geri que por infelicidade acabou pegando com o calcanhar na parte superior da minha cabeça, onde não havia protetor. Restultado: Hospital, tumografia, coágulo que depois do dois dias desceu para o olho direito e uma semana sem trabalhar sob observação médica. Claro que esta não foi a minha única derrota e nem que eu goste de relembrar, mas me fez repensar bastante na época. Pensava que se quisesse continuar a competir teria que melhorar muito, pois sabia que aquele acidente era fruto "sim" da minha falta de defesa e não de qualquer outro culpado. Mas este fato também serviu para que entendesse a diferença entre percorrer o caminho e ser o caminho. Quando percorremos o caminho, temos os obstáculos, temos as dificuldades, mas se por acaso resolvermos adiar ou protelar, o caminho continuará a existir. Quando, depois de muito tempo percorrendo o caminho, resolvermos "ser" o caminho, a responsabilidade aumenta, pois se você protelar ou adiar, o Caminho "para"e fica dependendo dos seus passos para existir.
Lembro-me que retornei aos treinamentos em menos de um mês com a autorização dos médicos, mas competir, demorou mais de seis meses. Queria estar apto e provar a mim mesmo que eu poderia "ser o Caminho" desde então.
Meu objetivo ainda está longe de ser alcançado, e tenho plena consciência de que ainda preciso melhorar muito, mas ser o caminho é uma escolha, e esta fora feita com sinceridade, portanto acordar todos os dias e dar os passos, é parte já da vida e desistir já não faz mais parte do meu vocabulário há muito, muito tempo.....

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quinta-feira, 16 de junho de 2011

Até amanhã

Ao final de cada dia, deitava minha cabeça naquele travesseiro japonês, pensava um pouco no dia que tinha se passado e dormia sempre sem pensar no dia de amanhã. O dia seguinte era sempre uma consequência daquela vida que mais parecia uma aventura ainda cheia de descobertas, mesmo comigo já adaptado ao "cenário" japonês. O sentimento era de que sempre existia um mundo inteiro à ser descoberto, à ser revelado, na escola eram as novas atividades, as matérias que eu nunca teria a chance de estudar no Brasil, nas horas vagas meus amigos me mostravam cada vez mais "os clássicos da infância japonesa" que iam desde as pequenas lojas de doces do bairro(onde por cinco yens, algo como cinco centavos), se comprava um chocolate que era incrivelmente bom! Além de saboroso, era bom também para o bolso dos estudantes que viviam de suas mesadas.

Apesar do treino pesado, cada vez mais duro e intenso, o Karate sempre acabava sendo a grande descoberta que finalizava o meu dia. Todos os dias era algo diferente, às vezes tinha medo, às vezes tinha preguiça, por outras ia sorrindo e me divertindo com o meu irmão. Alguns dias voltei chorando, bravo ou decepcionado por não ter feito um treino melhor. Outras vezes, jogávamos Street Fighter no Boliche ao lado da estação em Hamamatsu, de onde chamávamos e esperávamos o Taxi chegar para nos levar para casa.

Em todas essas ocasiões, de diferentes situações, sentimentos e acontecimentos, existia lá no fundo uma coisa que era sempre igual, o gosto por aquilo tudo. Se chorava, se doia, se levava uma bronca, sabia que quando voltasse para casa e colocasse a cabeça naquele travesseiro, o dia seguinte teria a oportunidade de tentar tudo de novo e exatamante por isso não pensava no amanhã. Quando você sabe, não pensa, não questiona, porque sabe, simplismente sabe. Fazer o que não deu certo funcionar e viver todas as coisas que deram certo novamente. Era exatamente isso que acontecia.

Já faz um tempo que tudo isso aconteceu e perdi a conta de quantas noites se passaram colocando a cabeça no travesseiro querendo apenas que o tempo adormecendo passasse logo, para fazer tudo novamente. Quantos "amanhãs" eu vivi dessa mesma forma.

Ando de metrô e lembro desses dias. Jogo uma versão mais nova de Street Fighter num aparelho portátil, esperando o ônibus na estação. Caminho um trecho à pé voltando para casa pensando em como nada mudou. A verdade é que não há de mudar nunca, pois a nossa essência apenas se adapta às circunstâncias da vida e do tempo. Ao final de cada dia, coloco a cabeça no travesseiro. Amanhã? Sei que será melhor, eu apenas sei. Nós somos os mesmos.

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segunda-feira, 13 de junho de 2011

Nossos Troféus

Viver no Japão pode ser difícil quando estamos longe da nossa família, dos nossos amigos, enfim, de todas as pessoas que amamos, passei por este período, logo que cheguei ao Japão e posso afirmar que não é bom. Mas, depois de dois anos, a família Saito estava unida novamente e isto era um motivo de felicidade constante. O Horácio já estava treinando Karate com o Mestre Konomoto já há mais de um ano e sua evolução era notável. Claro, que em nossa família, tudo corresponde à 20, 30% de dom natural e os outros 70, 80% tem que ser de muito esforço. Elogios então, rsrsr não existiam, ser bom era uma obrigação. Treinar no Japão, além de ser o berço da arte, é também o berço da qualidade de equipamentos. Os karate-gis não é preciso evidenciar a qualidade desde a confecção dos tecidos, até o primor nas costuras, é tudo perfeito. Dentro destes equipamentos, tínhamos os de proteção e em campeonatos era obrigatório. O MenHo (capacete) da Mizuno, o protetor de tórax para crianças e mulheres e as luvas da Mizuno, tudo oficial e aprovado pela JKF (Japan Karate-do Federation). Naquele ano (por volta de 1993) foi lançado uma luva da Tokaido e que era aprovado pela JKF e oficiais para os campeonatos Intercolegiais. Claro que comprei um par para testarmos.
O que me dá um certo ar de nostalgia, ver aquele equipamento que um dia foi novinho e agora totalmente destruido (rsrsr), ainda mais sabendo que foi graças a tanta utilização e muito treino. Naqueles equipamentos estão muito suor, muito sangue (meu e dos adversários), mas também muitas lembranças.
Lembranças dos Campeonatos Estaduais que venci e também dos que perdi. Das lutas memoráveis que tínhamos dentro do nosso Dojo, entre eu e o Yamashita-san, dos Campeonatos Nacionais que eu nunca cheguei a uma final.
Estas coisas materiais, assim como também os troféus e medalhas, trazem as lembranças dos valores envolvidos, de tudo que foi feito para suas conquistas. Ver as minhas velhas luvas, me leva àquela praia de Sagara-cho onde fica o Dojo, ou o ar do calçadão de Omaezaki, onde corri e pedalei muito. Me traz a sensação de gelado nos pés, que no inverno ficavam quase congelados no treino naquele piso de madeira do Dojo. Me traz a lembrança que antecedia o início de um combate em um campeonato, sabendo que era o único estrangeiro ali ou o som do trem bala, enquanto viajava para ir treinar.
Nossos maiores troféus são aqueles que nos trazem as maiores lembranças, assim, minhas velhas luvas são para mim, um grande troféu.....

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quinta-feira, 9 de junho de 2011

Os novos heróis

Treino aqui, treino lá, treino no dojo, treino no campo e assim, cada vez mais o passar do tempo se tornava intensamente Karate-Do. Já acostumado ao ritmo de vida de uma criança japonesa, onde as atividades escolares ocupam quase o dia inteiro, entre a escola e o Karate, cabia ainda perfeitamente as horas que eu passava com os meus amigos jogando video game, baseball no parque ou zanzando pelo bairro visitando grandes livrarias e comendo guloseimas nas lojas de conveniência.
Aos poucos eu deixava de ser o garoto que saiu do Brasil e me tornava o garoto brasileiro que vive perfeitamente no Japão.

Hoje como adulto às vezes me pergunto como era possível fazer tanta coisa! Desde que comecei os meus estudos no Japão na quarta série, as aulas da escola sempre iam até por volta das quatro horas da tarde. E como toda boa e velha vida escolar, além das aulas tinha também a lição de casa. Então o meu questinamento atual se justifica e eu tenho quase certeza de que lá naqueles dias, o tempo passava mais devagar.
Nesta rotina entre Karate, escola e amigos, existia o tempo que passava em casa com o meu irmão. E assim como eu deixava de ser o menino que saiu do Brasil, meus heróis, ídolos e referências também sofriam uma certa mutação.

Apesar de continuarmos com o nosso velho hábito de assistir filmes de luta, o espaço que tinhamos para ver alguma coisa na TV agora era dividido entre estes filmes e os vídeos de campeonatos de Karate.
Alguns vídeos eram VHSs comprados e outros eram de campeonatos que meu irmão gravava da TV.
Lembro de ter passado bastante tempo dessa parte da história assistindo aos Campeonatos Japoneses da JKF.
Vendo aqueles vídeos e ouvindo histórias que o meu irmão contava, os meus ídolos começavam à tomar uma forma mais real e os filmes de luta do Jean Claude Van Damme começavam à ficar em segundo plano, porque dali em diante não se tratava mais dos ídolos que eu gostava de ver, mas sim dos ídolos que um dia eu queria ser.

O Kizami Gyaku do Shimizu, os Urakens do Uchida (do Shimizu também), o capacete verde do Hayashi, os Ushiro-Mawashis do Enokido, os Deais do Shiina, a rivalidade entre uns e outros, tudo isso só me fazia querer ser como eles um dia. Os treinos se tornavam cada vez mais firmes, a cobrança também aumentava e incansavelmente meu irmão e eu víamos as técnicas em slow-motion no VHS, voltando a cena várias vezes para vermos melhor os detalhes( quem é da geração VHS sabe que não era legal ficar fazendo esse vai e vem), para tentarmos aquelas técnicas no treino seguinte.

Então, assim foram ficando para trás os heróis de barro, que derretiam e não me serviam de nada. Dando lugar à heróis verdadeiros que me faziam querer chegar num lugar mais alto, num patamar diferente. E o mais importante de tudo, o ídolo que eu sempre tinha ao meu lado que no dia seguinte, estava me cobrando mais velocidade nas entradas de Kizami Gyaku. Os ídolos são necessários, mas aqueles de carne, osso e sangue. Os heróis do meu mundo, aquele era de fato o meu novo mundo.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

Japan Karate-do Federation - JKF

Quanto à organização japonesa, nem preciso enumerar aqui as qualidades. Mas, existem algumas coisas que chamam a atenção para que funcionem. Uma delas é o fato de que os dirigentes, pensam antes de tudo, no bem maior, não apenas em si mesmo. O Dojo do nosso Mestre, é do estilo Goju-ryu, filiado à JKGA (Japan Karate-do Goju-kai Association) o orgão maior dentro do nosso estilo. Assim também, existem outros estilos com suas organizações, Shotokan-ryu, Wado-ryu, Shito-ryu e muitos outros.
Quando fui promovido para Shodan, meu Mestre me filiou também à JKF, a Federação que engloba os estilos tidos como tradicionais de Karate, é o orgão oficial que administra o karate-do, tanto como esporte como arte. Esta federação é quem organiza as competições onde participam vários estilos, e também as várias categorias: Mirins, Infantis, Juvenis, Juniores, Seniores e Masters. Além dos Intercolegiais, Interclubes, Regionais, Universitários e Inter Empresas. A competição Nacional Senior é transmitida pela rede de televisão NHK geralmente no mês de dezembro e, claro, não perdíamos por nada.
Felizmente no Japão, não há as "brigas" entre organizações e federações, pois lá não se tem isso como um meio de enriquecimento, pensa-se antes de tudo no bem e preservação da arte. Por isso é uma competição bem acirrada e tecnicamente muito elevada, participando os melhores atletas de cada organização. As brigas políticas e egoísticas ficam para segundo plano, mostrando com qualidade, realmente os melhores atletas do Japão.
A marca oficial dos protetores da JKF é a Mizuno e a partir de então, tive que adquiri-los. Confesso que no início não gostava muito dos protetores de cabeça (MenHo)pois a viseria de acrílico que protegia o rosto, também embaçava e dificultava a visão. Mas era um equipamento obrigatório em competições e não restava outra alternativa a não ser se acostumar. Diferentemente das luvas, que eram perfeitas, se moldavam milimétricamente nas mãos e ao fechar o punho, não se perdia a anatomia do golpe.
Várias coisas trazem saudades daquela época, e pensar nas luvas da Mizuno, me remete de volta as passado, me remete à época em que tinha vários ídolos que víamos no campeonato da TV e também aos treinos pesados no Dojo do nosso Mestre. A mesma luva tinha vários sabores, o sabor da dor, de sangue, de ansiedade, de conquista, de alegria de uma vitória e de decepção de uma derrota. O fator predominante era sem dúvida, o prazer de colocá-las na hora do treino, sem pretensão futura, apenas aquele momento único dos treinos: A hora de lutar. Estes momentos foram muitos, mas nunca serão os mesmos.
Lembranças boas do karate para mim são sempre aquelas que existem suor e sacrifício e as luvas da Mizuno, realmente fazer parte disto também......

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